quinta-feira, junho 04, 2009

Aprendendo a desaprender







Aprendendo a desaprende
O meu olhar é nítido como um girassol.
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
Para ver as árvores e as flores é preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e odo mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver, se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê, quando se abre a janela.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo delembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu...
O essencial é saber ver.
- Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida),
Isso exige um estado profundo,
Uma aprendizagem de desaprender...

(Alberto Caeiro - Fernando Pessoa)


Desejo uma boa semana para todos!

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